Depois de alguns desentendimentos entre o Primeiro-ministro romeno e o Ministério da Educação, o prefeito de Cluj tomou a frente e decidiu dar às creches particulares carta verde para a volta às atividades. E foi assim que no meio de junho eu voltei a ir pra creche, fato que trouxe muita alegria à nossa convivência familiar. A rotina na creche, no entanto, mudou muito de acordo com as medidas de segurança adotadas para tentar manter todo mundo seguro. As regras vão de uma checagem diária de temperatura na chegada, passando por uso obrigatório de máscara para acompanhantes e troca de roupa, até o horário máximo de entrada às 8:45, o que significa que eu e mais papai ou mamãe temos que acordar muito mais cedo do que o de costume. Mas não há cabresto que não se afrouxe com o tempo, e depois de algumas semanas as regras já se mostram abrandadas.
E mal eu me acostumei a estar com gente do meu tamanho, ou mais ou menos do meu tamanho, veio mamãe falando de férias. Quando eu vi já estávamos num avião pra Berlim. Passamos a primeira noite na casa do Ole, que eu já não via desde nossa viagem pelo Brasil. E ele cresceu tanto que além de ter ganhado uma cama com escada e tudo, ganhou também duas janelinhas no sorriso com a queda dos seus primeiros dentes de leite. Constata-se que a vida tá virando coisa séria pra ele, e que isso de ir pra escola tá já na esquina.

Opa tinha grandes planos para minha chegada: transmitir todo seu conhecimento de pesca. Não demorou muito até eu perceber o quão entediante era isso de esperar até que algum peixe mordesse a isca, mas no fim o Opa conseguiu fisgar alguma coisa e teve churrasco de peixe na janta. Eu, no entanto, preferi ficar com meu queijo grelhado.
Além da pescaria, Opa e Oma queriam levar eu e Ole para umas pequenas férias, apesar de corona, e conseguiram achar um cantinho pra nós quatro em Zempin (Usedom), no Mar Báltico, mas não esperávamos que eu sofreria uma grave contusão antes da viagem. Eu nem sei explicar como aconteceu: estávamos eu e Marlene, amiga da mamãe, mãe do Nepomuk, brincando com uma bexiga, eu caí e … crek… leve fratura no antebraço. Parece que meus ossos nem são assim tão duros de roer. E foi assim que eu e mamãe nos encontramos a caminho de uma emergência um dia antes da viagem para o mar. Mas não, infelizmente não foi com essa ambulância maneira da foto que nós chegamos no hospital, mamãe dirigiu o carro do Opa mesmo. Eu ganhei uma atadura vermelha e me auto-apelidei Monstro de Sangue, apesar de não ter sangrado nem um pouquinho.

Eu me acostumei rápido à limitação de movimentos e não deixei de aproveitar muita brincadeira nas férias com Ole. O destaque, pra mim, foi sem dúvida o Usedomer Bäderbahn, trem que transporta pessoas entre as cidades próximas. Tão marcante que eu e Ole ganhamos cada um o seu exemplar em miniatura dessa bela máquina. E o tempo não era lá de verão, mas aproveitamos mesmo assim. Dizem na Alemanha – e talvez o digam noutros cantos também – que não há tempo ruim, apenas roupas inadequadas.

Na orla da praia vimos uma apresentação de teatro, com distanciamento e ao ar livre, é claro. Eu então percebi o quanto me fazia falta a abrangente programação cultural à qual eu fora acostumado por mamãe e papai. Tanto que, de volta a Blankenfelde, improvisamos eu eu Ole nossas próprias apresentações teatrais no jardim da Oma.

Outra programação cultural da viagem com Opa e Oma foi a visita ao circo Berolina, antigo circo oficial desse país que não existe mais onde a mamãe nasceu. No circo nós pudemos dar comida aos elefantes, além de termos visto palhaços, camelos e cachorros artistas. Pensamos eu e Ole em montarmos também uma apresentação circense em Blankenfelde, mas acabamos decidindo que seria trabalhoso demais, além das dificuldades no trato ético dos animais. Desistimos.
Pra quem tá se perguntando qual ignorante vai no Mar Báltico e não vê o mar, peço que não ponha a carroça na frente dos bois. Nós obviamente nos esbaldamos na água fria do Norte, mas só com as pontinhas dos pés, claro está. E ainda fizemos uma visita ao pescador e sua parceira.


Estátua da parceira do pescador 
E o que pode ser melhor do que férias com cultura, mar e um trem? Exatamente! Férias com cultura, mar e muitos trens! Bom que Oma e Opa sabem disso, pois conhecem os netos que têm, e programaram uma parada num museu de trens em Gramzow. Além de ver e entrar em muitos trens antigos, foi a primeira vez que ouvi falar de uma dresina; vivendo e aprendendo, amigas e amigos, com 4 anos e 1/2 de idade.
E já que o tema é viver e aprender, com tanto tempo livre com mamãe em casa eu desenvolvi um grande interesse pelas letras e números, que eu ainda confundia até umas semanas atrás. Mas cada vez mais as formas e sons vão tomando lugar na minha cachola. Não é mais difícil descobrir que 2 mais 2 dá 4, que 10 mais 10 mais 10 mais 5 é o número de minutos que eu tenho pra ver vídeo antes de dormir, ou que me restam só 8 jujubas se eu dou uma pra mamãe e uma pro papai quando eu tinha 10. E ligando as sílabas, que eu já consigo prever juntando o som de duas ou mais letras, eu já vou chegando a palavras um pouco mais complexas do que Otto. Quem sabe isso vai ser de alguma serventia num futuro próximo.

Câmbio, desligo.











Uau, que delícia viajar com Opa Oma e Ole. Mar, trens, teatro, animais, circo… São lembranças maravilhosas que ficarão guardadas na sua memória pra sempre. E esses elefantes violentos? Que perigo! Sem contar as palavras que vc já sabe ler, escrever e já faz até contas. Que progresso! Tempo, por favor, vai mais devagar. ❤️